O Educação, Demagogia e Engenharia Social

Parte II

Também fomos atingidos, e em grande força, pela doença do politicamente correto que atacou grande parte da nossa sociedade e que leva à discussão dos assuntos “no plano das ideias”, pretensamente elevadas, recusando a concretização comezinha, para que se não “ridicularize a questão”, como se tornou habitual ouvir a governantes, com destaque para os da área da Educação.

Mas, o grande, enorme problema é que a vida das pessoas acontece na realidade do quotidiano e não nas nuvens etéreas das cabeças pensadoras que legislam a partir dos gabinetes ou das cabeças falantes e escrevinhadoras que nos servem em bandeja de prata numa comunicação social crescentemente acomodada. No caso da Educação, utilizando uma metáfora não particularmente brilhante, encontramo-nos num beco estreito, mal iluminado e apenas com um par de saídas possíveis, sendo que uma exigiria uma reavaliação de muito do que foi feito de errado nas últimas duas décadas (e a realidade existente prova à saciedade que os erros existiram) e o retorno a um ponto de partida, para daí se enveredar por outro caminho, enquanto a outra passa pela fuga em frente em que temos vindo a estar constantemente, reformando mal em cima de reformas elas próprias já mal aplicadas anteriormente.

Sejamos claros e concisos nas opções que devem estar sobre a mesa: Ou queremos um sucesso educativo estatístico, mesmo que à custa de uma galopante iliteracia funcional, e então está certo continuar a soterrar em papelada a questão da avaliação dos alunos e a acusar os docentes de serem os culpados de não conseguirem encontrar a solução para o insucesso dos alunos, ou queremos uma sucesso educativo efetivo, só possível com o aumento do rigor, do esforço e do grau de exigência colocado a TODOS os agentes no processo educativo (alunos, docentes, famílias e poder político), recuperando a Escola como um local de trabalho e fruição e o Professor como alguém que não é um mero gatilho da aprendizagem mas um guia dessa aprendizagem, qualificado para o efeito e digno do respeito dos seus alunos, dos seus pares profissionais, das famílias e da sociedade.

Mas para isso era necessário reformar a Educação a sério e não limitar a intervenção à cosmética legislativado costume, calcada sobre as Escolas com recurso ao aparato dos despachos, circulares e outros documentos afins, destinados a explicar o que as leis mal concebidas, mal planeadas e mal redigidas não conseguem por si mesmas.

Mas para isso era indispensável repensar a Docência como categoria profissional que merece ser respeitada não apenas no plano teórico, mas essencialmente na prática. Só que para tal era indispensável tocar em muitos interesses instalados, desde as instituições que formam professores de aviário, com currículos desfasados da realidade aos órgãos de gestão das escolas que, para se perpetuarem nos cargos, se tornam meras correias de transmissão das diretrizes superiores, sem capacidade de análise crítica, de resistência e de utilização das margens de manobra permitidas pelo Regime de Autonomia.

Mas para isso era necessário que se combinasse um sistema de recrutamento/colocação de professores que, respeitando critérios de justiça e equidade, permitisse a criação de corpos docentes coesos nas Escolas, sem que tal significasse apenas a institucionalização de redes clientelares nessas mesmas escolas. E era necessário que os quadros de pessoal estivessem adequados às necessidades reais e não aos humores orçamentais do Poder Central ou às estratégias pouco claras dos poderes locais (leia-se Conselhos Executivos que manejam habilmente as aberturas de novas vagas e as requisições de docentes.).

Mas para isso era essencial que os professores enquanto classe profissional, apesar da sua enorme dimensão, recuperassem um espírito de grupo que a deficiente ação dos sindicatos ajudou a corroer, com o seu divisionismo interno, a sua fragmentação em cliques com projetos estranhos à classe e com a perda de ligação das principais cúpulas aos problemas concretos de quem trabalha nas Escolas.

Porque a verdade é que, na quase certa impossibilidade de criação de uma Ordem dos Professores capaz de congregar a classe docente para a discussão dos assuntos da sua atividade que ultrapassam as meras e redutoras (embora importantes) questões laborais e/ou salariais, os Sindicatos deviam ter um papel mobilizador que não se limitasse às greves da praxe, não seguindo a reboque das circunstâncias e apenas reagindo às agendas ministeriais.

E, principalmente, os docentes deveriam poder olhar para os seus representantes sindicais e encontrar neles gente que tivesse contacto direto com a realidade e que, não caindo nas velhas tiradas trauliteiras, tipo cassete-sindical com 25 anos, tivesse coragem de não se intimidar perante o discurso do politicamente correto da aliança de interesses entre o Ministério e as Associações de Pais.

Paulo Guinote


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