Professor de História de um estabelecimento de ensino privado

PEÇO A PALAVRA, SENHORES GOVERNANTES…

No passado dia 5 de outubro o país celebrou a Implantação da República e o Dia do Professor. Nesse mesmo dia, o país celebrava a História e reivindicava o presente. Esse dia, o do Professor, ouviu-se de tudo um pouco, mas só se ouviu falar dos professores da escola pública como se os outros trabalhassem debaixo de um teto de ouro de condições.
No passado domingo, celebrámos a Democracia, pois fomos todos chamados a votar. Ainda assim, o país tem cores distintas para uma mesma Democracia.
Sou professor de História vai para lá de vinte anos. Passei pelo ensino oficial no tempo em que só consegui colocação através dos ‘mini-concursos’…Nesse tempo a incerteza e o desemprego eram certezas arrebatadoras para um professor, especialmente um professor de História…aquela disciplina relevante que conquista o discurso político em todos os inícios de mandatos, ou em comemorações de efemérides mais ou menos traumáticas da consciência cívica…
Há cerca de vinte e tantos anos atrás, quando a incerteza e o desemprego era uma dura realidade, a sorte bateu-me à porta quando fui chamado para integrar o corpo docente de um Colégio privado. Era a hora da incerteza dar lugar à estabilidade, a tão desejada estabilidade para construir um projeto de vida. Sim, era o tempo dos sonhos pessoais e dos projetos profissionais. Ainda assim, a realidade do ensino privado, com um forte e consistente projeto educativo, cedo deu lugar a um certo desapontamento, porque as ciências sociais e humanas foram e são preteridas em relação às ciências exatas e experimentais.
A opinião pública tem uma imagem negativa do ensino privado. Os rankings vieram abrir porta a uma discussão que opõe os professores contra os professores.
Ao longo destes mais de vinte anos é evidente a degradação das condições de trabalho no ensino privado. Sem aviso, os professores foram coagidos a assinar um contrato coletivo de trabalho, contrato esse assinado pelos sindicatos e a AEEP (Associação do Estabelecimentos de Ensino Privado) e sobre o qual os associados (do ensino privado) dos diferentes sindicatos nunca foram informados devidamente. Na maioria dos casos, este contrato correspondeu à redução de cerca de 200 euros, por mês, nos respetivos ordenados e o agravamento das condições (por exemplo, para fins de pagamento as horas extraordinárias só são contabilizadas a partir das 21 horas).
Como professor de História nunca imaginei viver tempos em que as ameaças (diretas e indiretas) passaram a ser um ‘estado normal’, o “diálogo” passou a ser ou unilateral ou condicionado…As ameaças, os horários que excedem o razoável e humano, a avaliação de desempenho sem utilidade alguma, a degradação do ambiente entre os professores e os professores e as direções e a disponibilidade que tem de ser total, dentro e fora do país, e sem remuneração acrescida.
Esta é a democracia que se vive nas escolas privadas, onde os mais velhos são vítimas de assédio moral que, na generalidade dos casos, os conduz à baixa médica (quase sempre prolongada) e, posteriormente, à rescisão de contrato, permitindo a contratação de professores mais novos, e por isso mais baratos…mas também menos preparados e capazes para resistirem a tanta pressão.
Esta não é a democracia que ajudei a construir e que ensino aos meus alunos…Uma democracia onde as mães professoras não têm direito à redução efetiva de horário (componente letiva) para fins de amamentação, as reuniões são marcadas intencionalmente à hora de almoço e as substituições de professores em baixa feitas por colegas que chegam a ter 28, 29, 30, ou até 32 horas de carga horária. E não, não há pagamento de horas suplementares aquando da realização de atividades noturnas, ao fim de semana ou fora da cidade/país.
Trabalhamos das 7h30 às 19h30…sem contar com as inúmeras reuniões (regulares) fora de horas…
Olhando à minha volta, a taxa de divórcio aumentou consideravelmente entre os professores…não há tempo para nós e para os nossos… só para os outros.
Debaixo de um discurso pseudo motivador, os resultados são um imperativo para garantirmos o nosso ordenado, o nosso lugar… É sob este tom que caminhamos …sem um grito de reivindicação, porque o medo instalou-se…E quem recorre aos sindicatos pouco ou nada traz de volta….
Estamos sós, não temos direito à ADSE, não usufruímos de nenhum seguro de saúde…ganhamos menos…
Os sindicatos só denunciam colégios e as respetivas direções por questões de financiamento, nada mais.
Perguntarão porque não saímos? Porque com 46 / 50 anos já somos velhos para “começar” de novo, porque seremos penalizados se concorrermos ao ensino oficial, uma vez que o nosso tempo de serviço não conta…
Ainda assim, nesta democracia em que vivemos no ensino privado, somos bons profissionais… somos excelentes…, mas ninguém nos ouve… porque muitos preconceitos pairam na sociedade sobre o ensino privado e quem o leciona…
Senhores governantes, quem nos defende? Quem defende quem luta diariamente pelo ensino da História, a tão promissora disciplina para construir um país e um mundo melhor?
Senhores governantes, que Democracia é esta que eu não quero viver, nem tão-pouco ensinar?

Professor de História de um estabelecimento de ensino privado.

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